Pôr do sol em Comporta a partir de uma duna: a costa tranquila além de Setúbal
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Comporta não parece o mesmo país que Lisboa. Sessenta quilómetros a sul, do outro lado do estuário do Sado e pelos arrozais da costa alentejana, é um ritmo diferente, uma luz diferente, uma relação diferente com o tempo. Fui numa sexta-feira de julho, o que parece a pior escolha possível — pico do verão, pico das multidões. Valeu a pena na mesma.
O problema da logística
Não há transporte público directo de Lisboa para Comporta, o que é a principal razão pela qual muitos visitantes não vão. As opções mais práticas são:
De carro: Cerca de uma hora de Lisboa pela A2 e depois a N253. O estacionamento perto da aldeia é gratuito, embora limitado em julho. Um aluguer para o dia custa cerca de €40-60.
De barco e táxi: Tome o barco de Setúbal ou Tróia (a travessia do estuário do Sado demora cerca de 40 minutos de Setúbal, ou 5 minutos de Tróia — o ferry de Tróia funciona regularmente e custa cerca de €2,80). De Tróia, os táxis até à aldeia de Comporta custam €15-20. Em alternativa, os autocarros Carris servem o percurso no verão.
Excursão organizada: Vários operadores fazem excursões de dia a partir de Lisboa combinando Setúbal, Arrábida e Comporta.
De Lisboa: excursão a Setúbal com equitação e dia de praia em ComportaFui com um amigo que tinha carro. Saímos de Lisboa às 7h30, apanhámos a A2 para sul, cruzámos o estuário do Sado pela estrada da Marateca, e chegámos a Comporta às 8h45. A aldeia estava a acordar.
A aldeia
A aldeia de Comporta é pequena — talvez 500 residentes permanentes — e construída num estilo baixo e horizontal que reflecte a abordagem alentejana à arquitectura: paredes brancas, telhados planos, sem pretensão. Os arrozais começam na orla da aldeia e estendem-se em direcção ao estuário, verdes e planos, uma ruptura visual completa com as colinas calcárias da Arrábida uma hora a norte.
A aldeia tornou-se na moda de uma forma costeira portuguesa específica — há restaurantes com design cuidado, um hotel boutique que cobra €400 por noite em julho, um punhado de lojas que vendem roupa de linho e cerâmica local. Mas ainda não caiu na monocultura turística total de alguns outros sítios costeiros. Numa manhã de sexta-feira em julho havia agricultores e vendedores de peixe assim como pessoas com óculos de sol caros.
A praia
A praia de Comporta tem 30 quilómetros de costa atlântica ininterrupta — a praia mais comprida do continente português, com secções que vão desde acessível (perto da aldeia) a genuinamente remota (acessível apenas a pé ou de 4x4). A areia é fina e branca. A água é fria (18-19 graus Celsius mesmo em julho) e clara. As dunas atrás da praia são altas — algumas de 10-15 metros — e cobertas de estorno.
Caminhamos para norte a partir do ponto de acesso da aldeia, afastando-nos dos bares de praia e das espreguiçadeiras alugadas, durante uns vinte minutos. A praia foi-se tornando mais esparsa. Quando parámos, havia talvez doze pessoas visíveis em cada direcção numa extensão de praia de cerca de um quilómetro.
Em julho. Numa praia a sessenta quilómetros de Lisboa. Por isso Comporta.
A tarde: vinho e arroz
Fomos à Herdade da Comporta, a quinta vinícola que domina a zona e que desempenhou um papel significativo na requalificação da região como destino de luxo. A prova de vinhos (€25 por pessoa, reservada com antecedência) cobre quatro ou cinco vinhos, todos feitos a partir de castas alentejanas com influência costeira — a proximidade atlântica dá aos tintos uma frescura que a maioria dos vinhos alentejanos não tem.
Prova de vinhos privada na Herdade da Comporta — reserve com antecedência, especialmente no verãoA sala de provas dá para os arrozais, que em julho têm um verde saturado e improvável. O guia mencionou que Comporta é um dos apenas dois sítios na Europa continental onde o arroz é cultivado em escala significativa (o outro é o Vale do Pó em Itália), um facto que continuo a partilhar e que nunca deixa de surpreender as pessoas.
A duna ao entardecer
É por isso que estou a escrever sobre julho em vez de um mês mais tranquilo: os pôres do sol de verão em Comporta são longos, tardios (depois das 21h00), e melhor vividos em altura. Há uma duna na extremidade norte do ponto de acesso principal à praia — cerca de 15 metros, não difícil de subir — que fica voltada a oeste sobre o Atlântico. Às 19h30 as multidões da praia tinham-se maioritariamente ido embora. Às 20h00 havia talvez trinta pessoas na praia e quatro de nós na duna.
O sol mergulhou no Atlântico às 21h06. O céu passou por laranja, cor-de-rosa, brevemente roxo, depois um azul profundo que durou uns dez minutos antes de ser propriamente noite. O Atlântico estava absolutamente liso.
A avaliação honesta
Comporta não é fácil de alcançar sem carro. Em julho é caro — os restaurantes cobram preços de Lisboa por pratos simples de peixe (robalo grelhado por €24, o que parece excessivo até se lembrar que está a comer a 50 metros do oceano). A praia é fria mesmo a meio do verão.
Nada disso importa muito. O guia das praias de Comporta tem mais detalhes sobre os pontos de acesso à praia e as melhores secções em diferentes épocas. O guia de excursões desde Lisboa situa Comporta no contexto completo das suas opções.
A minha recomendação específica: se tiver acesso a um carro, vá a Comporta numa quinta-feira de julho. Chegue cedo, caminhe para norte na praia, almoce num dos sítios mais simples da aldeia, veja a duna ao entardecer, conduza de volta. Não tente fazê-lo num dia como parte de um circuito mais alargado a sul de Lisboa — merece o seu próprio dia, e o ritmo assim o exige.