Skip to main content
Santo António em Alfama: sardinhas, marchas e a loucura de junho

Santo António em Alfama: sardinhas, marchas e a loucura de junho

O fumo chegou-me ao fundo das escadas. A meio da subida para Alfama, o cheiro a carvão e sardinhas era tão espesso que era quase físico — uma cortina que se atravessava. Lá em cima, na rua estreita que sobe pelo bairro antigo, vinte vizinhos tinham montado grelhas nas calçadas e a noite já estava em movimento.

Era 12 de junho de 2025, às 20h30. As Festas de Santo António estavam em curso.

O que são estas festas de facto

As Festas de Lisboa decorrem durante todo o mês de junho, mas o evento central acontece nos dias 12-13 — a véspera e o dia de Santo António, patrono de Lisboa. (Santo António de Pádua nasceu de facto em Lisboa em 1195, apesar da associação com Pádua, e os portugueses são compreensivelmente ciosos deste facto.)

Na noite de 12 de junho, as marchas populares — procissões de bairro decoradas com marchantes em trajes, bandas ao vivo e carros alegóricos elaboradíssimos — desfilam pela Avenida da Liberdade perante dezenas de milhares de espectadores. Entretanto, em todos os bairros mas de forma mais intensa em Alfama, Mouraria e Graça, as festas de rua eclodem simultaneamente: grelhas portáteis, toalhas de papel, jarras de sangria, música de múltiplas direcções ao mesmo tempo.

É genuinamente caótico. É genuinamente maravilhoso.


O desfile da Avenida da Liberdade

As marchas desfilam pela Avenida na tarde de 12 de junho, começando por volta das 21h30-22h00. Cada uma das freguesias históricas de Lisboa apresenta uma marcha com as suas cores, traje e coreografia próprios — equipas que têm vindo a ensaiar desde fevereiro. A qualidade varia entre o polido e espectacular e o amadoramente encantador, e ambos os extremos são divertidos.

Os pontos logísticos principais:

Os bilhetes para as bancadas pagas são colocados à venda com meses de antecedência e custam €15-30. Vale a pena comprar se quiser ver o desfile completo comodamente. Estar de pé ao longo da Avenida é gratuito mas requer chegar antes das 20h00 para conseguir um bom lugar.

O desfile termina bem depois da meia-noite. O metro funciona toda a noite no 12-13 de junho (horário alargado para a festa), o que torna o regresso a casa suportável.


Alfama à noite

A experiência real das Festas, para mim, não é o desfile da Avenida — são as ruas do bairro. Em Alfama, cada quarteirão torna-se na sua própria festa. Os residentes montam grelhas na viela, as cadeiras de plástico aparecem, o vinho e a sangria surgem, e tudo funciona num sistema informal onde os estranhos são bem-vindos a juntar-se.

As sardinhas — sardinhas assadas, grelhadas inteiras no carvão — são o centro gastronómico da festa. Um prato de quatro sardinhas, pão e uma pequena salada vai de €6-10 dependendo de quem as vende. A qualidade vai de excelente a medíocre e a preço de turista. A minha regra: se a grelha é operada por alguém que parece viver nessa rua e os pratos são de papel em vez de plástico, está no sítio certo.

Os arraiais — festas de rua de bairro — começam por volta das 18h00 e decorrem até às 2h00, 3h00, por vezes mais tarde. A combinação de ruas estreitas, múltiplas fontes musicais (bandas ao vivo, DJs, altifalantes nas janelas) e várias milhares de pessoas cria uma experiência sensorial que é maravilhosa ou avassaladora dependendo do temperamento.

Para contexto antes de junho, uma visita guiada a pé em Alfama explica a história do bairro e as tradições festivas

As realidades práticas

Como chegar: Metro para o Terreiro do Paço (linha Azul/Verde) ou Santa Apolónia (linha Azul), depois a pé encosta acima. Táxis e Ubers são essencialmente inúteis em Alfama no dia 12 de junho — as ruas estão fechadas ou impraticáveis.

O que esperar em termos de multidões: Alfama em 12-13 de junho está extremamente movimentada. Esta não é uma observação subtil. As ruas estreitas tornam-se genuinamente difíceis de navegar a partir das 21h00. Os carteiristas estão activos — guarde os objectos de valor nos bolsos da frente, não leve grandes quantias em numerário.

O que vestir: Calçado confortável que aguente calçada. Camadas leves — as noites de junho são quentes (18-22 graus) mas o fumo das sardinhas acumula e pode querer retirar uma camada exterior.

Quando chegar: Cheguei às 19h00, o que foi ligeiramente cedo — as festas de rua estavam a montar-se mas ainda não a todo o vapor. Às 20h30 já estava a andar a sério. Às 22h00 era genuinamente difícil mover-se livremente. Chegar um pouco antes da multidão dá-lhe melhor acesso à comida e uma experiência ligeiramente menos pressionada.


A manhã seguinte: o dia de Santo António

13 de junho é feriado municipal em Lisboa. A cidade acorda tarde. Alfama está pejada da evidência da noite anterior — espinhas de sardinha, copos de plástico, cinza de carvão nas calçadas a serem varridas por trabalhadores que parecem muito cansados. A igreja de Santo António no sopé de Alfama (construída no suposto local de nascimento do santo) tem uma pequena cerimônia matinal.

A meio da manhã começa uma segunda vaga de actividade — almoços de família, festas à tarde. As Festas são tecnicamente uma questão de uma semana completa em alguns bairros.

Se estiver em Lisboa em junho e quiser perceber o programa completo — os concertos gratuitos ao ar livre em várias praças, os eventos de bairro menos conhecidos, o mercado que decorre ao mesmo tempo — o guia do festival de Santo António cobre tudo em detalhe.

Para a questão do planeamento de verão de forma mais ampla, Lisboa no verão é o companheiro prático. E o guia de Alfama vale a pena ler antes de ir, para perceber o que o bairro é nos outros 364 dias do ano.

A experiência de 12 de junho vale algum planeamento e algum desconforto. É a única noite do ano em que um bairro que normalmente se deita à meia-noite está genuinamente, inequivocamente vivo.