48 horas em Alfama: fado, miradouros e pastéis ao amanhecer
Publicado
Sexta-feira à noite. Saí do metro no Terreiro do Paço e virei encosta acima, a seguir o som de algo que não conseguia bem definir — uma voz, talvez, ou apenas o vento por uma viela estreita. Quando cheguei a Alfama, percebi. Este bairro não nos recebe tanto como nos absorve.
Tinha quarenta e oito horas, uma mochila pequena e uma reserva numa guest house encravada entre dois edifícios cor de amarelo-pastel na Rua dos Remédios. O que se segue não é uma lista de tarefas. É o que aconteceu de facto.
Sexta-feira à noite: a subida tranquila
Alfama é o bairro mais antigo de Lisboa que sobreviveu, um dos poucos que o terramoto de 1755 deixou mais ou menos intacto. Os Mouros construíram-no, os Portugueses ficaram com ele, e de alguma forma nunca se tornou o bairro turístico sanitizado em que provavelmente já se devia ter transformado. Há lojas de souvenirs, sim — não vou fingir o contrário — mas basta dar meio quarteirão além da rua principal e está num bairro a funcionar onde a roupa seca entre edifícios e velhos jogam às cartas à porta da tabacaria.
Cheguei com demasiada fome para fazer qualquer coisa sensata, por isso segui um cheiro a carvão até uma pequena churrasqueira na Rua do Recolhimento. Sem menu em inglês, sem site, uma lista escrita à mão lá fora. Comi frango grelhado com arroz de tomate e um copo de vinho da casa por €9,50. Foi exactamente o que precisava.
Depois, subi ao Miradouro de Santa Luzia — o miradouro coberto de buganvílias com vista para o Tejo. Ao crepúsculo de uma sexta-feira no início de maio, havia talvez quinze pessoas. Um casal a partilhar uma cerveja na mureta. Um fotógrafo com um tripé. A luz a ficar laranja sobre a água. Fiquei no banco mais tempo do que planeava.
Sábado de manhã: o eléctrico, o castelo, o pastel
Estava na paragem do eléctrico 28 na Rua da Conceição às 7h15. O eléctrico chega cheio do Martim Moniz e vai esvaziando um pouco em Alfama — vá cedo e pode conseguir lugar sentado. A subida pelo bairro, com o eléctrico a gemer nas curvas tão apertadas que parecem impossíveis, demora uns doze minutos até ao Largo das Portas do Sol. Vale a pena exactamente uma vez, feita correctamente. Veja o nosso guia sobre o eléctrico 28 para a estratégia completa de como evitar as piores multidões.
O Castelo de São Jorge abre às 9h00 e se lá estiver a essa hora, a torre está quase tranquila. Comprei o bilhete na bilheteira (€15 em 2022, verifique os preços actuais) e passei uma hora a percorrer as ameias com talvez quarenta pessoas. Às 11h00, quando saí, os grupos de turistas tinham chegado e a fila esticava-se até à bilheteira. Essa diferença de duas horas faz toda a diferença.
Reserve o e-ticket para o Castelo de São Jorge com audioguia com antecedênciaDo castelo, desci pelo Mouraria até à Mercearia do Manel na Rua do Terreirinho — um pequeno merceeiro que vende excelente queijo, chouriço e vinho local ao copo. Comi uma pequena dose de petiscos ao balcão. €6.
Os pastéis de nata vieram depois, na Manteigaria na Rua do Loreto no Chiado — uma curta caminhada de Alfama que vale o desvio. Os da Pastéis de Belém são famosos, mas a fila em Belém numa manhã de sábado pode chegar aos quarenta minutos. A Manteigaria faz-os continuamente, pode ver pelo vidro, e a fila anda depressa. Dois pastéis e uma bica: €2,80.
Sábado à tarde: a grelha de vielas
A melhor coisa que pode fazer em Alfama numa tarde de sábado é não ter qualquer plano. Subi do Largo do Salvador em direção à Graça, dei voltas erradas, encontrei becos sem saída, voltei atrás. Deparei-me com o Convento da Graça quase por acaso — um mosteiro do século XIII que a maioria dos visitantes passa à frente porque não está na rota principal. O claustro estava vazio. Um gato dormia na pedra.
O Miradouro da Graça fica mesmo acima do convento e dá uma vista do castelo de cima, que a maioria dos miradouros não oferece. Menos fotografado do que as Portas do Sol, e às 15h00 de um sábado estava sossegado o suficiente para pensar.
Perdi mais uma hora na Feira da Ladra — o famoso mercado de alfarrabistas de Lisboa, que funciona às terças e sábados de manhã no Campo de Santa Clara, mesmo acima de Alfama. Estava a fechar por volta das 15h00, mas os vendedores que ficam mais tarde são muitas vezes os que estão dispostos a negociar. Encontrei um conjunto de azulejos de um edifício demolido, azuis e brancos, por €12. Estão agora na parede da minha cozinha.
Para a caminhada da tarde, o guia do bairro de Alfama tem uma análise mais sistemática do que ver e em que ordem, incluindo a escadaria escondida no Beco do Carneiro que quase ninguém encontra.
Sábado à noite: fado, como deve ser
É aqui que tenho de ser honesto, porque muito do que é vendido como fado em Alfama não é fado como os locais o vivem.
As casas de fado agrupadas em torno da Rua do Capelão e perto do Largo do Chafariz de Dentro existem num espectro. Numa ponta: operações caras de jantar-espectáculo onde os músicos são tecnicamente competentes mas actuam para um público que não consegue distinguir bom fado de fado mediano. Na outra: casas pequenas onde os fadistas são locais, o público inclui pessoas que realmente se preocupam, e a atmosfera é a coisa em si.
Tinha reservado uma mesa numa casa na orla de Alfama — não um dos nomes famosos, mas recomendada pelo dono da guest house, que era natural de Alfama. O jantar era uma ementa fixa (€38, incluindo vinho), três fadistas actuaram ao longo de duas horas e meia, e no final percebi genuinamente algo que não tinha percebido antes. O guitarrista português no canto mal se mexeu. O violista baixo observava o rosto da fadista. A fadista cantava de olhos fechados e mãos quietas.
Viva o melhor fado e comida em Alfama numa noite guiadaSe quiser o contexto completo para escolher uma casa de fado — o que procurar, o que evitar e quais as noites melhores — leia o nosso guia das casas de fado em Alfama.
Domingo de manhã: as ruas vazias
Alfama num domingo de manhã antes das 9h00 é uma cidade diferente. Os grupos de turistas não chegam até meio da manhã, os restaurantes e lojas estão maioritariamente fechados, e as ruas pertencem aos gatos (há muitos gatos) e ao ocasional residente que vai à padaria.
Acordei às 7h00 e percorri a Rua de São Miguel até ao rio. No Largo do Chafariz de Dentro, uma pequena praça com fonte que a maioria dos visitantes não encontra, uma mulher estendia roupa pela viela estreita lá em cima. O Tejo cintilava a dois quarteirões de distância. Um homem empurrava um carrinho de legumes encosta acima.
Comprei um croissant e um galão num café na Calçada do Duque — €2,20 — e comi sentado nos degraus de uma igreja cujo nome nunca soube. Esta é a coisa de Alfama: deixa de precisar de saber os nomes das coisas. Fica simplesmente com o que é.
O lado prático
Como chegar: Metro para Santa Apolónia (linha Azul) ou Terreiro do Paço (linha Azul). Táxis e Uber deixam-no na base da colina — as ruas de Alfama são demasiado estreitas para a maioria dos veículos mais acima.
Onde ficar: Paguei €85/noite por um quarto duplo numa pequena guest house. Há agora mais opções, desde quartos económicos a cerca de €60 até hotéis boutique a rondar os €200. O guia de onde ficar em Lisboa cobre a gama completa.
Cuidado com: O eléctrico 28 é famoso por carteiristas. Guarde o telemóvel num bolso da frente, não de trás, e esteja especialmente atento na paragem do Martim Moniz onde o eléctrico está mais cheio. O guia de Lisboa sem armadilhas cobre este e outros pontos importantes.
Dinheiro: Alfama é mais barato que o Chiado mas não tão barato como era. Preveja €30-40 para jantar com fado, €10-15 para almoço sem ele.
O roteiro de dois dias em Lisboa constrói uma estrutura semelhante num programa completo se quiser algo mais sistemático. Mas honestamente? Alfama recompensa quem anda sem destino mais do que quem planeia. Calçado confortável, agenda leve, e siga a música.