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Perdido em Mouraria: o berço do fado a pé

Perdido em Mouraria: o berço do fado a pé

O mapa deixou de ser útil na terceira viela encosta acima. Estava algures acima do Intendente, abaixo do castelo, no bairro que os turistas de Lisboa ignoram quase por completo porque não tem um miradouro famoso nem uma fachada particularmente fotogénica. Mouraria. O bairro mourisco. O bairro onde o fado nasceu.

Tinha uma manhã de domingo em janeiro e nenhuma agenda em particular, o que é exactamente a condição certa para percorrer Mouraria.

Um bairro que os mouros deixaram para trás

Após a reconquista cristã de Lisboa em 1147, os residentes mouros que recusaram partir foram confinados a este bairro em encosta fora das muralhas da cidade — daí o nome. Construíram vielas estreitas e interligadas desenhadas para o tráfego pedonal em vez de carroças, uma lógica que ainda define o bairro 875 anos depois. Não se pode conduzir aqui. Mal se consegue andar de bicicleta. Caminha-se, e aceita-se que a colina é íngreme.

A zona da Graça e Mouraria é a menos gentrificada dos bairros históricos de Lisboa, o que significa que é também a mais desigual. Há cantos genuinamente belos e outros genuinamente desgastados. Cheira a peixe frito de manhã e a frango grelhado ao meio-dia. Os azulejos pintados nas fachadas dos edifícios vão do impecável ao a cair, e ambas as versões são de alguma forma mais interessantes do que os restaurados que se encontram no Chiado.


Por onde começar

O Largo do Intendente é o ponto de entrada óbvio — uma praça ampla que sofreu uma renovação significativa na última década, ancorada pelo edifício do Palácio Intendente (agora um hotel boutique) e ladeada por cafés e pequenos restaurantes. Nas manhãs de domingo está calmo. As pessoas lêem jornais. Por vezes instala-se um mercado ao longo de um dos lados.

A partir daí, as vielas sobem em todas as direcções. Fui primeiro para norte, pela Igreja de Nossa Senhora do Socorro, depois para leste em direcção às muralhas do castelo — o lado de trás do castelo, que a maioria dos visitantes nunca vê porque se aproximam pela porta da frente. Deste ângulo as muralhas parecem mais fortificadas, menos pitorescas, mais genuinamente medievais.

Os degraus do Beco dos Cativos descem abruptamente para o centro de Mouraria, um conjunto de pequenas praças incluindo o Largo de São Cristóvão. É aqui que, segundo a tradição, viveu a jovem fadista Severa no início do século XIX — amplamente considerada a primeira grande voz do fado. Há um painel de azulejos em sua memória na parede de um edifício em que ela provavelmente nunca pôs os pés, mas estas coisas são imprecisas.


O canto do Chapitô

Deparei-me, como muitos fazem, com o terraço do Chapitô — uma escola de artes circenses com bar e restaurante pendurada acima de uma descida vertiginosa para os telhados de Alfama. Fica tecnicamente na zona de transição entre Mouraria e Alfama, o que é talvez a razão pela qual nenhum dos bairros o reivindica totalmente. Num domingo de janeiro estava suficientemente tranquilo para uma bica e um pastel de nata (€2,90 no total) sem espera.

A vista do terraço do Chapitô é genuinamente excelente — o Tejo visível ao longe, o emaranhado de telhados de terracota cá em baixo — e não custa nada sentar na mureta com um café. Sem taxa de miradouro, sem fila, sem oportunidade fotográfica organizada. Apenas um terraço que por acaso está ali.


A identidade fadista de Mouraria

Esta é a coisa que fui encontrando repetidamente: o fado em Mouraria é discutido como história, não como espectáculo. A ligação do bairro à música é ancestral em vez de comercial. Encontra aqui uma ou duas pequenas casas de fado a funcionar, incluindo a Tasca do Chico na Rua do Diário de Notícias (na verdade logo abaixo no Bairro Alto, mas frequentemente mencionada em contextos de Mouraria), mas o bairro não se promove como destino de fado como Alfama faz.

O que é precisamente a razão pela qual parece mais genuíno. A história do fado explica a genealogia completa — como a música veio dos cais, absorveu influências africanas e brasileiras, e se tornou o que é — mas Mouraria é onde essa história começa fisicamente.

Combine os dois bairros com uma visita nocturna a pé incluindo fado e petiscos

Se quiser compreender o fado em vez de apenas ouvi-lo, passe uma hora em Mouraria antes de ir a uma casa de fado em Alfama. O contexto muda tudo.


Almoço de domingo: não é um restaurante turístico

Ao meio-dia já caminhava há três horas e estava com fome da forma específica que apenas as subidas urbanas criam. Encontrei uma pequena taberna — cinco mesas, uma ementa manuscrita num quadro, vinho em jarras de barro — numa das vielas sem nome acima do Largo do Contador Mor. O cozido à portuguesa custou €10,50 e demorou vinte e cinco minutos a chegar. O pão já estava na mesa. Uma pequena cobrança por ele apareceria na conta (o couvert — prática padrão em Portugal, perfeitamente legal, por vezes esquecida de mencionar). €1,50 neste caso. O guia de Lisboa sem armadilhas cobre a realidade do couvert para que não seja apanhado de surpresa.

A única outra mesa ocupada tinha uma família: dois pais, três filhos pequenos, uma avó. Almoço de domingo. Ainda lá estavam quando saí.


A Mouraria de que me afastei

Perder-se em Mouraria não é uma metáfora. As vielas têm de facto becos sem saída, os degraus levam de facto a algum sítio inesperado, e a aplicação de mapas no telemóvel falha periodicamente porque as ruas são demasiado estreitas e demasiado antigas para serem representadas com precisão pelas imagens de satélite. Isso não é problema.

Caminhei durante quatro horas e percorri talvez dois quilómetros quadrados. Vi dois turistas (sem me contar), um gato de rua que podia ser o mesmo gato que tinha visto mais cedo, e um canto onde alguém tinha encaixado um pequeno azulejo de um santo na argamassa de uma parede a cerca de altura do joelho. Não tenho ideia de há quanto tempo estava ali.

Para uma abordagem mais estruturada a Mouraria e aos bairros circundantes, o guia de passeios a pé lista opções com guias locais que sabem que vielas tomar. Mas para a versão de domingo de manhã? Saia do metro no Martim Moniz e comece a subir. Vai encontrar.